Friday, June 4, 2021

Sinais

–  Qual é o problema, meu amor? Não, não diz que não é nada porque eu vejo você. E você costumava me notar também. Você sabe que eu tomo café com açúcar mascavo e não este aqui que você me trouxe. Você sabe que odeio salsinha e adoro coentro. Há quantos anos você já não comprava salsinha na feira, meu amor? Você tirava o cabelo do sabonete; não deixava a taça de vinho embaçada; trocava nossas escovas de dentes sempre que estavam gastas. Sim, são detalhes. Mas não são detalhes; são sinais, entende? Eu te sinto, eu vejo, eu te conheço há muitos anos. Você costumava me olhar nos olhos. E nunca com este olhar vazio que você tem agora. Não foge! Me diz de uma vez, meu amor! Cansou de mim? Encontrou alguém? O que você tem?

– Glaucoma, meu amor.

Thursday, April 1, 2021

Papo de praia

– Você viu que não foram buscar o prêmio da Mega-Sena?

– Já pensou se o cara tiver morrido na pandemia? 

– Puta falta de sorte.

Friday, February 19, 2021

Linha branca

 – Você é muito gentil... mas tô achando essas geladeiras todas muito fracas. A minha comprei quando casei e durou vinte anos.

–  Casamento hoje em dia não dura tudo isso não, minha senhora.

Venta

E as camadas de você se espalham pelo meus cantos. Ocupam todos os espaços que não tenho. Espremem, apertam, sufocam. Você é tanto que me pergunto se ainda sobra matéria para você existir fora de mim.

Tudo

 o que é sentido

faz.

Thursday, October 8, 2020

Cachorro quando acorda

chacoalha o mundo pelo rabo. Lambe a cara de quem deixa. Pula, cheira, explora. Percorre o quintal em alta velocidade, assusta passarinho, foge de samambaia, faz xixi em capim santo. Vasculha a casa e celebra cada pessoa que encontra como se fosse uma grande supresa. Ignora resmungo, ramela, mau humor e ressaca. Tromba, pula, coça, arranha, gira. Mostra a barriga pro mundo. 
A família finge que não vê e segue tomando café devagar. 
Como se ele não tivesse toda a razão.

Pensando que já era hora,

ela decide se reconectar com o – agora apenas – colega de trabalho. 

Há três mesas dali, ele já não parece tão distante quanto tem estado nos últimos tempos. Tem os olhos fixos na tela grande, beberica um café velho e ostenta o fone caro na cabeça. 

Para não dar importância demais à coisa toda, ela planeja um ato espontâneo. Aproxima-se de mansinho, captura o fone e aproxima do próprios ouvidos.

Ele levanta apenas os olhos vazios. 

Alguns longos segundos se passam até que ela reconheça a reprodução da própria voz. 
Numa mensagem de áudio, ela lê uma longa lista de compras para uma viagem que eles não chegaram a fazer.