- Eu não entendia porque não conhecia ninguém que tivesse encontrado. Ninguém que conhecesse alguém que tivesse encontrado. Só entendi quando encontrei. Entendi porque guardei segredo. Achei que, se contasse, envergonharia os que ainda não encontraram. Afinal, quem ainda não encontrou é, de fato, menor. E explicitar isso é cruel. É esnobe. Quem já encontrou não precisa mais de vaidade besta.
-Encontrou o quê?
-Se você encontrar, vai saber.
Thursday, April 3, 2008
Tuesday, February 19, 2008
Monday, February 11, 2008
Na locadora
– Você não vai dormir no meio do filme?
– Se eu dormir, você me conta o resto da história.
– Você sempre dorme.
– E você me conta a história.
– Você não gosta dos filmes?
– Gosto das histórias.
– Se eu dormir, você me conta o resto da história.
– Você sempre dorme.
– E você me conta a história.
– Você não gosta dos filmes?
– Gosto das histórias.
Wednesday, January 23, 2008
A vida anda tão boa
Que eu tô tomando o maior cuidado. Voltei a malhar, não bebo mais, levo sempre o dinheiro do assalto trocado no bolso. Evito saídas desnecessárias. Chego do trabalho, enfio o pijama de flanela, me escondo embaixo da cama e agradeço a Deus por não termos furacões no Brasil.
Thursday, January 3, 2008
Dizem
Que a gente começa a morrer assim que nasce. Mas não é verdade. Uma criança, por exemplo, não está morrendo. Nunca. Mesmo quando ela está doente, muito, muito doente, ela não está morrendo. Quando uma criança morre é sacanagem do universo. De Deus, sei lá. A gente começa a morrer depois. E não tem tanto a ver com a idade. É um momento e pronto. A partir dali, você está morrendo. Acontece quando o avião decola e você não espia pela janela. Acontece quando o prato que você pediu chega absolutamente perfeito e você não faz nenhum comentário. Acontece quando você começa a acreditar que a pessoa que vai consertar você não existe. Acontece o tempo todo. Mas não é com todo mundo. Ouvi dizer que os que escapam vivem mais cem anos. E quando morrem, morrem cedo demais. Como crianças.
Friday, December 7, 2007
César num bistrozinho metido a besta
Ele estava numa mesinha redonda com toalhinha de fazer charme e uma garota convidada a fazer charme. De onde eu estava, via que ele se inclinava para frente, espichando a mãozinha rechonchuda por cima da mesa na direção da garota. Dava pra ver o sorriso molenga, escorrendo pelo rosto dele. Dava pra ver que ele salpicava palavras doces de tempos em tempos. Não dava para ouvir, dava pra ver. Dava pra ver que não tava funcionando. Dava pra ver a nuca da garota inexpressiva. Isso, faz uns dias. Mas hoje a memória da cena me esculpiu um sorriso gratuito. Foi um desses momentos de poesia involuntária no meio dia. Pensando agora, deve ter sido por isso que não reparei no rosto da garota quando passei por eles. Não foi porque era feia, foi por respeito.
Wednesday, December 5, 2007
De repente
Estava lá: um tempinho livre. Simples assim, sem aviso, motivo ou sentido. Agenda livre, nenhum recado secretária eletrônica, nem spam na caixa de e-mail. Absolutamente nada. Agora, era só respirar fundo, ajeitar-se na cadeira e fazer planos de fazer planos.
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