Tuesday, February 19, 2008

2 Crumbs

Achei um sujeito que é mais ou menos como eu.
Às vezes melhor, às vezes pior.
Mais ou menos como eu sou em relação a mim mesmo.
Pensei em entrar em contato.
Desisti.
Tive medo de descobrir que ele era eu mesmo.
Tive medo de descobrir que não era.

figcrumbs

Monday, February 11, 2008

Na locadora

– Você não vai dormir no meio do filme?
– Se eu dormir, você me conta o resto da história.
– Você sempre dorme.
– E você me conta a história.
– Você não gosta dos filmes?
– Gosto das histórias.

Wednesday, January 23, 2008

A vida anda tão boa

Que eu tô tomando o maior cuidado. Voltei a malhar, não bebo mais, levo sempre o dinheiro do assalto trocado no bolso. Evito saídas desnecessárias. Chego do trabalho, enfio o pijama de flanela, me escondo embaixo da cama e agradeço a Deus por não termos furacões no Brasil.

Thursday, January 3, 2008

Dizem

Que a gente começa a morrer assim que nasce. Mas não é verdade. Uma criança, por exemplo, não está morrendo. Nunca. Mesmo quando ela está doente, muito, muito doente, ela não está morrendo. Quando uma criança morre é sacanagem do universo. De Deus, sei lá. A gente começa a morrer depois. E não tem tanto a ver com a idade. É um momento e pronto. A partir dali, você está morrendo. Acontece quando o avião decola e você não espia pela janela. Acontece quando o prato que você pediu chega absolutamente perfeito e você não faz nenhum comentário. Acontece quando você começa a acreditar que a pessoa que vai consertar você não existe. Acontece o tempo todo. Mas não é com todo mundo. Ouvi dizer que os que escapam vivem mais cem anos. E quando morrem, morrem cedo demais. Como crianças.

Friday, December 7, 2007

César num bistrozinho metido a besta

Ele estava numa mesinha redonda com toalhinha de fazer charme e uma garota convidada a fazer charme. De onde eu estava, via que ele se inclinava para frente, espichando a mãozinha rechonchuda por cima da mesa na direção da garota. Dava pra ver o sorriso molenga, escorrendo pelo rosto dele. Dava pra ver que ele salpicava palavras doces de tempos em tempos. Não dava para ouvir, dava pra ver. Dava pra ver que não tava funcionando. Dava pra ver a nuca da garota inexpressiva. Isso, faz uns dias. Mas hoje a memória da cena me esculpiu um sorriso gratuito. Foi um desses momentos de poesia involuntária no meio dia. Pensando agora, deve ter sido por isso que não reparei no rosto da garota quando passei por eles. Não foi porque era feia, foi por respeito.

Wednesday, December 5, 2007

De repente

Estava lá: um tempinho livre. Simples assim, sem aviso, motivo ou sentido. Agenda livre, nenhum recado secretária eletrônica, nem spam na caixa de e-mail. Absolutamente nada. Agora, era só respirar fundo, ajeitar-se na cadeira e fazer planos de fazer planos.

Friday, November 30, 2007

Ela

Mal se mudou, mudou tudo. Amassou garrafa de refrigerante, pôs pratos no lugar das vasilhas, panelas no lugar dos pratos, sumiu com as vasilhas. Tirou moedas do vaso, jogou fora papéis de estimação, arranjou lugar pra cachorro e orquídea. Trocou sofá, a disposição dos móveis, os móveis, os copos, arrumou tapetes.
Sozinho, pensei na bagunça que ela deixaria, se um dia fosse embora.