Thursday, July 27, 2023

Me chame

 Para fazer compras do mês no supermercado,

renovar seu passaporte no consulado,

ir à lotérica fazer apostas 

na quina de São João


Me chame para conhecer o bebê de um colega de trabalho

num hospital distante, 

na hora do rush,

numa véspera de feriado de carnaval


Me chame para assistir a você pintar as unhas,

dos pés e das mãos, 

num salão lotado de madrinhas 

de um casamento desconhecido


Me chame com esses olhos aí que você tem,

com essa boca macia, 

com esse nariz gelado,

com essa cara de pau


Me chame

Sunday, July 9, 2023

Num domingo

A vida desmonta

em pedaços


Cacos

sob pés

macios


Blocos

coloridos


Brinquedos

fora de lugar


Wednesday, November 30, 2022

Meses depois

Uma família sem-teto finalmente dá sentido para as barracas abandonadas em frente ao quartel.

A guerra não é mais notícia

 Foi difícil, mas as pessoas se acostumaram. Especialmente as que não vivem ali.


Friday, November 18, 2022

Sonho realizado

E o cachorrinho cobre você de urina 

na capa do jornal de ontem

Sunday, June 26, 2022

Nada muda

Os sol desenha os dias na parede. O café chega na cama. Você dorme cansada de sonhos grandes. As bananas são gigantes, os docinhos não. A conversa toma o café gostoso e se estica caminhando. O parque, a praça, as calçadas de Roma, Paris, Barcelona, Maceió, São Paulo, Fortaleza se fundem. E são todas nossas. O café, o pão de queijo, lojinhas tímidas descobertas são iguarias para de vez em quando. O dia intenso chega se desdobrando em mil aventuras de férias ou trabalho. Nos toma pelas mãos, olhos, cabeça e cabelos. Intenso e vigoroso. Almoços corridos e tranquilos. Jantares cansados e divertidos. Reconectamos nos sons da noite. Ciclistas barulhentos podem passar pelas janelas. Cantamos ou não. Brindamos ou não. Música, cinema, literatura nos visitam. No horizonte, as paisagens são sempre lindas. Os corpos exautos de tanta sorte. Lado a lado. O carinho e o sono nos disputam. Somos um só para os dois. SMS vira WhatsApp. A vida acelera. Amanhã vai ser melhor ainda. Nada muda.




Friday, June 4, 2021

Sinais

–  Qual é o problema, meu amor? Não, não diz que não é nada porque eu vejo você. E você costumava me notar também. Você sabe que eu tomo café com açúcar mascavo e não este aqui que você me trouxe. Você sabe que odeio salsinha e adoro coentro. Há quantos anos você já não comprava salsinha na feira, meu amor? Você tirava o cabelo do sabonete; não deixava a taça de vinho embaçada; trocava nossas escovas de dentes sempre que estavam gastas. Sim, são detalhes. Mas não são detalhes; são sinais, entende? Eu te sinto, eu vejo, eu te conheço há muitos anos. Você costumava me olhar nos olhos. E nunca com este olhar vazio que você tem agora. Não foge! Me diz de uma vez, meu amor! Cansou de mim? Encontrou alguém? O que você tem?

– Glaucoma, meu amor.