Friday, November 30, 2007

Ela

Mal se mudou, mudou tudo. Amassou garrafa de refrigerante, pôs pratos no lugar das vasilhas, panelas no lugar dos pratos, sumiu com as vasilhas. Tirou moedas do vaso, jogou fora papéis de estimação, arranjou lugar pra cachorro e orquídea. Trocou sofá, a disposição dos móveis, os móveis, os copos, arrumou tapetes.
Sozinho, pensei na bagunça que ela deixaria, se um dia fosse embora.

Friday, November 9, 2007

Por

– Por que não?
– Por que pôr tudo a perder?
– Porque quem põe tudo a perder, antes de mais nada, tem tudo.
– A gente tem?
– Por que não?

Saturday, October 27, 2007

Hum

- De tanto pensar na gente.
- Acho que a gente.
- Pensa igual.

Tuesday, October 16, 2007

Abreviações

Os dois compartilhavam a fila de cinema. Faltou ingresso e eles reconheceram-se. Viram que eram amigos, apesar de não serem.
Naturalmente falaram sobre filas, filmes, livros, tartarugas, pedras, sol, Antártida. Falaram até faltar assunto.
D., 17, propôs uma caminhada a fim e afim de criar coragem para ficar parado e calado. Enfim, levou J., 16, para uma rua que esconderia o acanhamento dos dois.
F., 13, tentava decidir se atacaria primeiro o homem ou a mulher. Haviam lhe dito que casais eram o alvo ideal. A mulher proteje o homem, o homem proteje a mulher, ninguém reage. Disso, ele lembrava. Só não lembrava quem deveria abordar primeiro. Gostava de abordar. É mais fácil abordar que atacar. Checou o revólver. Estava armado.
Quando D. viu F. surgir detrás de uma árvore, acertou um chute, que atirou o garoto longe. De longe, o garoto atirou e acertou.
J. caiu primeiro, D. logo depois. F. atravessou a rua correndo e encontrou um ônibus que o transformou em mais uma letra de mais uma reportagem de mais um jornal. Que só conta o fim da história.

Thursday, October 4, 2007

Ensolarado

Nas ruas, a poluição purpurinava alegremente em compridos feiches de luz e trânsito. Tudo passava como um rio. Posso jurar que duas ou três pessoas me davam passagem. Tenho uma vaga impressão de que sorriam. Talvez seja exagero.
Só sei que as buzinas, o trabalho, a diferença social, a falta de tempo e o amor que todo tempo faz falta/ Sei que, de todas as minhas dívidas, acordei alienado.

Wednesday, September 19, 2007

Ontem

Morreu um homem que eu não conhecia. Na verdade, não morreu ontem; fiquei sabendo ontem. Para mim, foi ontem.
Vendia bonecos de retalho nas madrugadas, nos bares. Sempre me arrancava uns sorrisos, menos freqüentemente uns trocados.
Certa vez, sabendo do meu aniversário, perguntou se eu não queria encomendar uma caricatura. “Não fica igual”, avisou. Eu ri e deixei por isso mesmo. Perdi para sempre a oportunidade de ser eternizado na sua galeria de pano, ao lado de Zé Celso e da simpática cobrinha Tuli-Tuli.
Os botecos perderam mais um personagem. Posso dizer que das pessoas que não conheci, ele era a mais bacana.

Tuesday, September 18, 2007

Despedida de solteiro

– É tudo muito infantil. Coisa de quem teve que se reprimir muito tempo, daí vem para esse tipo de lugar/
– Puteiro.
– Hein?
– Este lugar é um puteiro.
– Ok, ok. Vêm ao puteiro para lembrar algo que se julga estar perdendo. Eu não estou interessado, obrigado.
– Nem de graça?
– É de graça?
– Não.
– Nem de graça.