Os dois compartilhavam a fila de cinema. Faltou ingresso e eles reconheceram-se. Viram que eram amigos, apesar de não serem.
Naturalmente falaram sobre filas, filmes, livros, tartarugas, pedras, sol, Antártida. Falaram até faltar assunto.
D., 17, propôs uma caminhada a fim e afim de criar coragem para ficar parado e calado. Enfim, levou J., 16, para uma rua que esconderia o acanhamento dos dois.
F., 13, tentava decidir se atacaria primeiro o homem ou a mulher. Haviam lhe dito que casais eram o alvo ideal. A mulher proteje o homem, o homem proteje a mulher, ninguém reage. Disso, ele lembrava. Só não lembrava quem deveria abordar primeiro. Gostava de abordar. É mais fácil abordar que atacar. Checou o revólver. Estava armado.
Quando D. viu F. surgir detrás de uma árvore, acertou um chute, que atirou o garoto longe. De longe, o garoto atirou e acertou.
J. caiu primeiro, D. logo depois. F. atravessou a rua correndo e encontrou um ônibus que o transformou em mais uma letra de mais uma reportagem de mais um jornal. Que só conta o fim da história.
Tuesday, October 16, 2007
Thursday, October 4, 2007
Ensolarado
Nas ruas, a poluição purpurinava alegremente em compridos feiches de luz e trânsito. Tudo passava como um rio. Posso jurar que duas ou três pessoas me davam passagem. Tenho uma vaga impressão de que sorriam. Talvez seja exagero.
Só sei que as buzinas, o trabalho, a diferença social, a falta de tempo e o amor que todo tempo faz falta/ Sei que, de todas as minhas dívidas, acordei alienado.
Só sei que as buzinas, o trabalho, a diferença social, a falta de tempo e o amor que todo tempo faz falta/ Sei que, de todas as minhas dívidas, acordei alienado.
Wednesday, September 19, 2007
Ontem
Morreu um homem que eu não conhecia. Na verdade, não morreu ontem; fiquei sabendo ontem. Para mim, foi ontem.
Vendia bonecos de retalho nas madrugadas, nos bares. Sempre me arrancava uns sorrisos, menos freqüentemente uns trocados.
Certa vez, sabendo do meu aniversário, perguntou se eu não queria encomendar uma caricatura. “Não fica igual”, avisou. Eu ri e deixei por isso mesmo. Perdi para sempre a oportunidade de ser eternizado na sua galeria de pano, ao lado de Zé Celso e da simpática cobrinha Tuli-Tuli.
Os botecos perderam mais um personagem. Posso dizer que das pessoas que não conheci, ele era a mais bacana.
Vendia bonecos de retalho nas madrugadas, nos bares. Sempre me arrancava uns sorrisos, menos freqüentemente uns trocados.
Certa vez, sabendo do meu aniversário, perguntou se eu não queria encomendar uma caricatura. “Não fica igual”, avisou. Eu ri e deixei por isso mesmo. Perdi para sempre a oportunidade de ser eternizado na sua galeria de pano, ao lado de Zé Celso e da simpática cobrinha Tuli-Tuli.
Os botecos perderam mais um personagem. Posso dizer que das pessoas que não conheci, ele era a mais bacana.
Tuesday, September 18, 2007
Despedida de solteiro
– É tudo muito infantil. Coisa de quem teve que se reprimir muito tempo, daí vem para esse tipo de lugar/
– Puteiro.
– Hein?
– Este lugar é um puteiro.
– Ok, ok. Vêm ao puteiro para lembrar algo que se julga estar perdendo. Eu não estou interessado, obrigado.
– Nem de graça?
– É de graça?
– Não.
– Nem de graça.
– Puteiro.
– Hein?
– Este lugar é um puteiro.
– Ok, ok. Vêm ao puteiro para lembrar algo que se julga estar perdendo. Eu não estou interessado, obrigado.
– Nem de graça?
– É de graça?
– Não.
– Nem de graça.
a semiótica e o rango
Uma vez me disseram que o homem que nasceu cego dorme de olhos abertos. A frase sempre me pareceu um ditado japonês mal traduzido, algo que deveria ser bonito no original.
Ao longo dos anos, machuquei cascas de árvore, cartas de amor e ódio com essas palavras. Pelos meus cálculos, a recitei em voz alta oito vezes, sendo que em pelo menos uma delas eu estava sóbrio, e em outras duas troquei a palavra “cego” por “o homem que nada vê” (que julguei reforçar o aspecto intraduzível da coisa toda).
Ontem de madrugada, abri a porta da geladeira para pegar a última fatia gelada de pizza de calabreza com azeitonas pretas e, bem na hora em que a pequena luz se acendeu, percebi que nada não fazia o menor sentido.
Ao longo dos anos, machuquei cascas de árvore, cartas de amor e ódio com essas palavras. Pelos meus cálculos, a recitei em voz alta oito vezes, sendo que em pelo menos uma delas eu estava sóbrio, e em outras duas troquei a palavra “cego” por “o homem que nada vê” (que julguei reforçar o aspecto intraduzível da coisa toda).
Ontem de madrugada, abri a porta da geladeira para pegar a última fatia gelada de pizza de calabreza com azeitonas pretas e, bem na hora em que a pequena luz se acendeu, percebi que nada não fazia o menor sentido.
Thursday, September 6, 2007
Monday, September 3, 2007
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